Há pontes a ameaçar ruir devido a promessas de amor. Não se trata de fogosidade extrema, nem de juras sem nexo: são os malditos cadeados com que os casais pensam selar indubitável amor eterno. Se zelassem mais pelo respeito mútuo e estímulo da relação, salvariam mais casamentos do que um milhão de promessas materializadas em cadeados. Serei eu a divagar…
Na Rússia, é tradição que os casais se beijem numa ponte no dia do seu casamento. Aqui, só os milionários optam por quintas. Normalmente, um restaurante e parcos convidados. Há também quem opte por pic nic. E diversas outras formas de compromisso bem mais simples, genuínas e baratas. Em Moscovo, boa parte dessas pontes martirizadas pelo pesado metal estão apinhadas de poluído tráfego rodoviário ou lixo. Na verdade, o verdadeiro convite a evitar qualquer tradição mais romântica.
A solução das autoridades, que não queriam ficar atrás de toda a cidadezinha do Mundo, foi criar, em 2007, uma ponte pedonal, a Luzhkov bridge, junto à praça Bolotnaya – com a sua estátua do pintor Ilia Repin e o inevitável fontanário com o nome do mesmo artista -, bastas vezes alvo de concentrações populares para protestos vários.
Adivinhando o concorrido apetite romântico, a cidade decidiu “plantar” várias árvores, igualmente metálicas, na ponte. Que não tardaram a florir. Em ritmo voraz, os cadeados vão-se sucedendo. Acumulando. Atrapalhando. E há quem, à falta de espaço, não hesite em ver-se livre de juras de amor alheio. Tudo em nome dos bons princípios e de um amor supremo. Acima dos direitos de quaisquer outros mortais.
Vá lá, deparo-me com casalinhos enamorados, mas livro-me de ver uma noiva em exagerado êxtase a beijar o seu prometido, fechar o cadeado – normalmente, em forma de coração – e atirar a chave para o rio. Não vá alguém abri-lo e assim quebrar o feitiço.
Lamentável, eu sei. Hoje não me sinto assim tão romântico, apesar da inegável formosura das moscovitas. Perco oportunidade de ouro. Não penso casar em breve (na verdade, não vejo esse cenário num futuro bem extenso…). A paixão cega não me assiste. Tenho o essencial – um cadeado, pequeno, da mala -, mas falta-me o Amor melado e pouco imaginativo, preso a uma qualquer ponte.
Avanço dez metros e logo ali sou convidado a posar. Uma atenção autárquica também para casalinhos. Dois lugares sentados. Uma áurea e uma asa de anjo para cada um. Tudo em metal.
Estou embeiçado, mas o melhor mesmo é seguir caminho. Até porque a minha vista alcança o museu Tretyakov (a “tal” ponte faz parte do seu projeto). O que reúne o maior espólio de arte russa. .

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