“Caminhei cinco horas para vir ao mercado. Já estou habituado, não custa”, diz-me Selam. Traz consigo uns dois quilos de cebolas para vender. “Ou trocar por comida que faça falta”. São 09h00 e o buliço já é imenso. Acredito que o mercado tem muitos (demasiados, até) exemplos como o do meu novo amigo. De madrugada, noite cerrada, encontra-se muita gente a caminhar no meio do nada. A penosos quilómetros de qualquer casa. Verifiquei isso quando deixei Lalibela.O mercado deste lugar Património Mundial da UNESCO é um caos do mais delicioso. Nada está limpo, direito ou organizado. Excepto a separação de animais, roupa, comida e quinquilharias.Sobra genuinidade. E cor. Pena um pequeno grupo de endinheirados turistas, vestidos com inapropriada roupa de safari, a exibir enormes lentes que, pareceu-me claro, não sabem potenciar. À caça de tudo e mais alguma coisa, para poder exibir, como troféus de caça. Sem esperar pelo momento ou ‘tiro’ certeiro.Não aprecio a rudeza com que aqui  tratam os burros. Sempre foi assim, mas há muitos gestos desnecessários. Deviam ser uma equipa. Trabalhar enquanto tal. Para bem de ambos. Temos gado bovino e caprino. E galinhas. E donos pacientes. Regateiam-se preços. Analisam-se os animais. Há apertos de mão. E desavenças. Aqui tudo é bruto. Puro. Empírico.Não é um mercado silencioso. Sobra-lhe vida. Mas falta-lhe jovialidade. Independentemente das idades, os rostos são cansados. Há quem sorria. Há quem meta conversa e me convide a comprar das coisas mais bizarras e desnecessárias. Há também quem apenas exista. Maquinalmente. Como que amordaçados pelo destino, que nunca puderam controlar. O fiel retrato da Etiópia…Dos mercados que até hoje me deram mais prazer explorar….

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