Não sei de onde vem. Apenas o muito, muito bem que sabe. Não chega a ser vento. É brisa agigantada. E traz-me de volta ao acampamento base de Hamadella… Passei a última hora a ver camelos. Caravanas deles. Com os mesmos processos e rituais de há mais de 2.000 anos, quando o sal valia por moeda. Como sempre, transportam sal do inferno do Danakil para vender numa aldeia, a caminho da civilização. O preço multiplica por 10 na primeira cidade, Makele. Dizem-me que cada bloco de sal, que aparenta uns cinco quilos, é vendido a uns 40 cêntimos. Irrisório, para um dos trabalhos mais duros do Mundo: sob o sol mais abrasador do planeta, arrancar grandes blocos ao solo, parti-los e dar-lhes forma quadrada/rectangular,   organiza-los nos camelos e burros e transportar a mercadoria com caminhadas de dias. Na zona mais quente do Mundo. Em cenário, desolador. Inevitavelmente, estes heróis Afar pedem alguma coisa. Podem ser óculos de sol ou de ver, uma garrafa de água ou simplesmente dinheiro. Com camelos e pequenos burros como fiéis escudeiros, são os senhores deste Mundo que parece não poder existir no nosso.A medida que vão desaparecendo do olhar, misturam-se as formas em cores quentes no horizonte. O sol vai desmaiando. Os Afar não. Jamais vergam.As estrelas começam a ganhar intensidade e já preciso de luz do frontal para encontrar  o acampamento. Espera-me um chá. Mark acompanha-me, tal como a  versátil australiana Lucy, de 27, e um castiço casal francês de 70’s, Jean Pierre e Collette, que não param de viajar. É este o grupo inicial desta viagem de cinco dias ao maior inferno do planeta. A avaliar pelo dia de hoje, promete cumprir com a fama.
Estou numa cama de rede ao relento. Não vou ter outra nestas noites. Tal como não vou ter duche, wc  e outros luxos. Jantamos à luz de candeia. Com direito a vinho. Uma boa surpresa. Os franceses não facilitam…Este céu recorda-me o do deserto e Marrocos, as noites infindáveis da Namíbia. Sou abraçado por milhões de estrelas. E pela mesma brisa que, hoje, torna suportável este inferno com 35* de temperatura média. São 20h30 e já todos se deitaram. Creio que fazem como eu. Contemplam o céu, ouvem mp3 e sorriem. Felizes.O povo Afar é rude e feroz. Sem motivo de queixa, para já. Socializamos junto as bombas de captação de água. Todos somos estrelas. Nós e eles, maravilhados.Os 260 quilómetros de hoje em terra inóspita deixam marcas no corpo. Não duvido, em relação à mente. Foi para isso que aqui vim.Esta aldeia será a mais pobre onde já estive. Não há parede ou cimento. Apenas a ancestral arte de juntar paus. Assim se faz o lar de cada família. Há mais gente do que sinais de ‘civilização’. Sobram traços de penúria. Não de resignação. Este povo é orgulhoso. E guerreiro. Só assim sobrevive aqui. Não há alternativa.Não apetece contar mais nada hoje. Quero fixar o firmamento e viajar. Sem testemunhas. Endless Skies….

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