De volta a terra, almoço junto ao lago. Serenidade e muitas aves. Enormes pelicanos assumem o papel de “bombardeiros”. Bela pose militar e voo em conformidade. Os meus companheiros estão a viajar com jipe alugado. Este motorista, bem-disposto e com sentido de humor. Prestável e descomplicado. O oposto do nada saudoso Johnny, cuja viagem com Bil Sorridente e Daniel terminou em esquadra de Adis Abeba. E o pagamento dos seus serviços abaixo do acordado. Contam-me que com comportamento exemplar da polícia. Enfermeira de 27 anos vem connosco. Nunca viu as quedas de água no Nilo. Paola admite contrata-la. Traze-la para Portugal. Tem 69 anos – 25 de espírito – mas assume que não caminha para nova e uma companhia dedicada é sempre útil. Erro de casting. Jovem que anteriormente a cativara pela simplicidade aparece agora com inapropriada roupa ‘chique’, de casamento. Salto alto. Perfume que a todos incomoda.
Há outras formas de nos prepararmos para trekking: o sofrimento ajudou-a a entender o… lapso. Consegue em Paola o efeito exatamente contrario ao pretendido. Criou-lhe as dúvidas que parecia não ter.Perguntar-me-ia, três vezes, se também ia embora no dia seguinte. “Sim, com o Augusto e a Paola”, esclareço. Ar de deceção. Nao sei porquê. Chegamos. Caminhamos uns metros. Atravessamos rio de barco. Andamos mais. Descemos. E lá estão elas. Bem mais tímidas do que a fama que granjeiam. Uma completa deceção. A nova hidroelétrica está a condicionar o espetáculo, que apenas é pleno com a visita de chefes de Estado. Não é o caso. Somos meros ilustres portugueses…Há, não muito longe, uma ponte construída por portugueses. Mais uma obra. Desconhecíamos o feito. O dia vai adiantado e não temos tempo. Impossível prolongar a caminhada. Perderemos o barco e ficaremos encalhados do lado oposto. A próxima ponte, defendida pelo filho de Vasco da Gama, não escapará à nossa atenta exploração.
Observamos várias espécies de aves enquanto refrescamos os pés no Nilo Azul. E empreendemos o regresso. Como rebentos de duas plantas. Dizem-me que uma é grão de bico. Apenas sei que sabe muito bem.Caminho é bem agreste e demorado. Mói ainda mais o corpo com cansaço acumulado. Bahir Dar recebe-nos já com a lua refletida no lago. Yin e colegas de excursão estão no mesmo restaurante que escolhemos. Small world. Desafiam-nos para um copo em lugar com espetáculo de música e dança locais. Não falharemos. Após satisfazer o caprichoso palato com mais dengosos e espessos sumos de manga e abacate.
A música alta anuncia que estamos a chegar. Ficamos quase na primeira linha de mesas. Os cantores desfilam vozes invulgares e pouco melodiosas. O meu ouvido está destreinado, pois a multidão local delira. Regra geral, os intérpretes vestem fato. Do tempo dos meus saudosos avos. E abanam o corpo sem graciosidade. Não são eles quem cativa. É o entusiasmante corpo de dançarinos. Três insinuantes donzelas e dois enérgicos cavalheiros. A dança típica etíope tem mesmo algo de fascinante. Vicia. Cativa. De forma tão invulgar quanto as suas coreografias. Já a caminho do quarto, um vulto ainda mais negro que a escuridão propõe-se como companhia. Não me tira o sono. Abalaremos com ao raiar do sol….

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