Agora percebo que seria mesmo milagre ter chegado a Debark hoje, como desejava e planeei. Falhando o transporte das 05h00, sujeitava-me. O aconselhado Hotel Africa não tinha o wifi funcionar, a luz também falhou longo tempo e, creme de la creme, mosquitos que cheguem para me chatear por um par de anos.Perdi a conta ao número de vezes que fui picado – é verdade, não trouxe repelente – numa noite de pesadelo. Só quando acabei o último exemplar tive paz. Só as 08h00 estou pronto para a longa travessia no norte, com paisagens sublimes e estradas caóticas. Ou seja, em poeirenta construção. Shire é o primeiro destino. Chegarei cedo, mas logo me dizem que não posso continuar. Não há transporte para Debark ou Gondar. Só na próxima madrugada. Escrevo o nome DEBARK bem a negro em folha A4. E ponho-me na rua que atravessa Shire a pedir boleia. Muitos risos. Algumas tentativas de ajuda. Duas horas a tostar, com suor em barda. Sorte, nenhuma.Dois alegados cantoneiros surpreendem-me a falar perfeito inglês e sugerem-me um destino onde depois posso apanhar a ligação pretendida. Assim faço.. Aguardo uma hora até bus encher e lá vamos. Muito pó e imensa terra batida depois, chegámos. Um ermo que, afinal, não tem ligação hoje.
Ouço um senhor dizer Gondar e sigo-o. Pena não falar inglês. Diz-me para subir a moto e sou o rei da poeira. Pára uns cinco quilómetros depois. Hiace de 12 lugares. Agressivamente, pedem-me 100 birr (uns quatro euros), digo que nem pensar. Fechamos nos 50. Pago quase o dobro, mas a alternativa não o é. Onde há nove lugares individuais serão 22 pessoas em amálgama humana. Nunca andei tão contorcido. Ady Arkay é etapa ganha. Não passaria daqui. Não há mesmo mais nada.Troco expressões faciais resignadas com o meu ‘amigo’ que não fala inglês. E vamos juntos procurar estadia. Um ‘hotel’. Único no burgo, parece. Este não é um lugar onde alguém quer ficar encalhado…
Ofereço-lhe o jantar em sinal de agradecimento pela sua conduta. E damos umas voltas pelos 300 metrosde vida neste fim do mundo. Muita gente e animação, na estrada sem luz pública. São as lojinhas e a cor que exibem a dar todo o encanto ao lugar…Estou imundo, serão novamente os toalhetes a salvar-me. Espero que o meu amigo me desperte para não continuar encalhado…seria o fim..
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