‘Filme’ no aeroporto de Maputo

‘Filme’ no aeroporto de Maputo

– “Vamos falar sobre isso ali, de volta ao terminal”, diz-me, com exagerada candura, que me faz suspeitar.
– “De forma alguma. No avião há uma lista com o nome dos passageiros. Verá que estou incluído na mesma”, respondo, com simpática firmeza.
– “Isso não sei. Mas é melhor falar ali. Está lá o meu colega”, insiste o zeloso funcionário do aeroporto.
– “Deixe-o estar. Não se incomode. Nem o chateie. Vamos ao avião”, remato. E, ignorando a sua voz elevada, de quem reprime um ato reprovável, começo a caminhar. Decidido.

Entretanto, o candidato-a-fiscal-ou-qualquer-coisa-parecida, com um óbvio e cúmplice olhar, chama o compincha que tenta colocar um ar ainda mais sério e não menos preocupado (comigo, claro está). Insiste na mesma solução. Que é melhor voltarmos ao terminal.
– “Da pista só me dirijo ao avião, não volto atrás”, insisto, mal me voltando para retorquir. Firme. Impávido. Sereno. Não tenho alternativa, se quero, mesmo, seguir viagem.
Vendo-me irredutível, o personagem-fictício-2 lá se arrasta comigo até ao avião. Pesaroso, em menos de dois minutos confirma que realmente me chamo Rui Batista e que, de facto, viajo no lugar 20 F, como lhe dissera.
Meto o sorriso ‘vai-jogar-pau-com-os-ursos’ nº47 (acreditem que há sorrisos mais nefastos) e deixo-o a falar sozinho, dirigindo-me ao meu lugar.

No voo Lisboa-Joanesburgo há uma escala em Maputo, onde chegámos por volta das 05:30. Os passageiros são convidados a sair duas horitas do avião. No regresso, já depois de ter devolvido o cartão ‘em trânsito, sou abordado, já na pista (tal como os outros passageiros), para mostrar o bilhete do voo. No meio da tralha toda que carrego, não o encontro. E é aí que o zeloso ‘inspetor’ já esfrega as mãos, convicto de que a gasosa pode ser choruda. Inocente, mantinha certamente a esperança de que a minha alegada aflição ou pretenso desconforto lhe fosse valer alguns euros… Já vi destes filmes na minha primeira passagem por Moçambique e em outros países do Continente negro.

O chato da história é que em dezembro já houvera chatice com a polícia duas vezes em Maputo… sempre com ridículos pretextos para uns meticais/euros. Na fronteira com a Tanzânia, também em 2009, a polícia e o exército foram igualmente claros na tentativa de nos aliviar dos parcos cifrões que carregávamos. Também sem êxito.

Um país tão belo e com gente tão simpática e calorosa não merece este persistente ‘lado B’.

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