XXX para a polícia

XXX para a polícia

É hora de voltar a Blomfontein, deixando o já saudoso Lesoto. Penso em regressar diretamente de Maseru para Joanesburgo, mas a família Jardim convence-me a reencontra-la em Bloemfontein. Tudo, menos um sacrifício. Negoceio transporte para a fronteira, que atravesso a pé. Lesoto para a África do Sul. Do outro lado há táxis coletivos para vários destinos. Garanto lugar no próximo a sair para Bloemfontein e, como habitualmente em África, espero que encha. Só depois parte. Vá lá, demorou ‘apenas’ uma hora e meia.
Vou na última fila de um veículo de 12 lugares apinhado de sacos e malas que me retiram totalmente a vista para a frente. Aliás, sento-me e não mais consigo mover os pés. Aliás, apenas os olhinhos se exercitam: o resto, é complicado. O que me vale é que a viagem não dura mais de duas horas.
Antes de partirmos, uma discussão em dialeto local que não decifro, mas no fim acaba tudo em bem – pelo menos penso que sim – e estamos prontos para a viagem.
A alta velocidade, voámos para Bloemfontein quando o excesso de velocidade motiva uma ordem de paragem por parte da polícia. Demorar a sair da fronteira tinha sido stressante, perder mais tempo com problemas com a polícia não melhora o cenário.
A minha apreensão – não tinha pressa, mas gostava de sair do veículo para me conseguir mover, pois todo o corpo já é uma massa dormente – não tem paralelo no motorista, que sai com estilo de sobra e grande autoconfiança. O carro da polícia desloca-se uns 300 metros até nós e o agente sai da viatura, dirigindo-se à nossa.
Para meu espanto, o nosso motorista trata de relevar a situação de forma muito criativa e prática: abre as calças, começa a urinar junto à parte traseira da carrinha e assim, apenas com a cabeça virada para trás, começa a conversa com o agente.
A cara do polícia não augura bom resultado. Espero o pior. Porque, afinal, nada entendo de África. Em três minutos, o motorista, já com o seu ‘amiguinho’ recolhido, volta à viatura e arranca.
– “Como conseguiste safar-te da multa”, questiono-o, já no terminal de táxis do destino.
– “Está sempre tudo controlado”, sorri, acabando pura e simplesmente com a conversa. Não tenho margem para duvidar.

África é… África.

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