ARÁBIA SAUDITA: Quando a hospitalidade questiona preconceitos

ARÁBIA SAUDITA: Quando a hospitalidade questiona preconceitos

A Arábia Saudita não colhe a minha simpatia. Ponto! E quando a extrema hospitalidade do seu povo nos faz questionar os nossos dogmas?

Ouço, mas não quero acreditar. Soa-me ao exagero simpático que generaliza a cultura de um povo. Pois bem, vou sentir na pele a ousadia de duvidar. De questionar-me sobre o quão genuínas e verdadeiras são aquelas palavras.

Ushaiger é uma aldeia histórica saudita, em demorado processo de regresso à vida. À que tinha há mais de 40 anos, antes dos avós de quem a tenta reabilitar se mudarem para a parte nova do lugarejo.

Encontro um pequeno museu e um punhado de lojas abertas, espalhadas pelo degradado casario. Tradicionalmente vendendo velharias que me encantam. Se pudesse, NADA deixaria para trás. Começam a reconstruir casas, contudo ninguém vive cá.

Que privilégio deambular por estas paredes com 600 a 800 anos de história sem testemunhas dos meus passos. Todos estes segredos para sorver, com tempo. Ouvindo somente o vento e as sombras que vão mudando o cenário, à medida que o astro-rei se esbate no horizonte, deixando tudo entre quentes castanhos e laranjas.

Exploro Ushaiger ao fim do dia, quando a luz desmaia, e regresso quando o sol vai lá no alto. Soube-me a pouco e desejo perceber a vida que tem a horas decentes. Pois bem, basicamente, a mesma. Meia dúzia de almas. Sauditas e trabalhadores de países menos favorecidos economicamente. Encontrarei três iemenitas e dois bengalis, sorrisos puros do desejado Iémen e do saudoso Bangladesh.

Há uma ‘casa’ de dois pisos. Pai e filho tentam recuperar a morada dos avós, com o contributo dos dois bengalis. Teremos direito a honras de Estado, ou seja, visita guiada – e pormenorizada – aos escombros e aos respetivos sonhos de transformação de quem aqui passa os dias.

“Querem vir conhecer a nossa quinta? Tomaremos café ou chá”, desafiam-nos. Os trabalhadores – sem ainda querer generalizar, mas na Arábia Saudita os habitantes locais parecem não muito afetados pela dureza do trabalho, normalmente entregue a imigrantes – assentem com os olhos, como que respondendo por nós. Por mim e pelo Filipe (Morato Gomes), do Alma de Viajante, com quem partilho esta aventura.

Aproxima-se a hora de almoço e, confesso, o meu subconsciente tem-se fixado numa frase bem popular: “Já marchava qualquer coisinha que me afagasse o estômago”. Não tarda, o filho está no nosso carro, para que não nos percamos, e lá vamos em direção à tal quinta. Com direito a visita guiada pelos animais – nunca vi cabras com orelhas quase até ao chão – e diversificadas árvores de fruto. Até que somos convidados a entrar numa espécie de sala para refeições e convívio, com um conjunto de artefactos expostos na parede.

Provaremos três tipos de chá e café árabe. Primeiro, atacaremos as tâmaras, confiando que a simpatia não vai passar dali. Quando a seguir chega caju e outros acepipes, é neste fruto seco que me foco. Só para prevenir. No momento em que revelamos a necessidade de partir, insistem em que temos de ficar. “A minha mãe está há algum tempo na cozinha a preparar-nos o almoço”, justifica o filho.

Longe de mim contrariar qualquer progenitora, muito menos a sua hospitalidade. Ou a de quem decidiu por ela, pois não chegaremos a cruzar-nos.

Seremos convidados a mudar de aposentos. Para uma tenda estilo berbere. Com ar condicionado. E uma mesa. “Nós comemos no chão, mas como temos visitas…”, justifica o varão. Aceitamos o desejo que manifestam de comermos como estamos habituados, no entanto resisto a usar talheres. Quero que se sintam em casa e faz todo o sentido que, neste caso, me adapte à sua cultura. Na verdade, só têm colher para o arroz de frutos secos, carne de camelo e de galinha. Salada. E massa com queijo. Água, sumos, coca-cola. E uma bebida à base de leite. NADA falta para nos fazer sentir em casa. Na verdade, não precisam de tanto. Há muito que assim me sinto.

“Está tudo muito, muito bom. Agradecemos a vossa generosa hospitalidade. E, por favor, digam à vossa mãe que é uma excelente anfitriã, uma cozinheira exímia”, digo. Antes de perceber um ar – quando me refiro à mãe – que me faz suster as palavras seguintes: o desejo de a conhecer. Sem que digam uma letra, perceberei que é mais prudente não revelar a minha curiosidade.

Voltaremos à sala inicial. E nova rodada de chás e café. E tâmaras. Desta vez, os dois empregados bengalis juntam-se ao grupo. Isto, depois de terem rezado todos juntos, lá fora. Como se iguais fossem. Na parte da bebida social, percebemos um certo à-vontade entre as duas ‘fações’. A conversa flui perra – o inglês de todos os nossos interlocutores está longe de ser o melhor, contudo há ferramentas nos smartphones que, por vezes, nos ajudam a criar pontes com quem não partilha a mesma língua – porém  há cordialidade e um trato igualitário. Acredito que assim seja. Quero confiar que esta história não é como demasiadas outras, de maus tratos, exploração, quase escravatura de quem vem para a Arábia Saudita sem nada a perder em busca de uma vida melhor.

Já estamos na fase de rebolar. E vamos recusando, como podemos, as generosas ofertas gastronómicas. Até porque está na hora de partirmos. Estamos aqui há mais de três horas e todos os nossos planos para hoje mudaram. Sem que me arrependa por um só instante.

Antes das despedidas, uma grande embalagem de tâmaras para cada um e os maiores limões que alguma vez vi. Mais parecidos, no tamanho, com meloas do que com os citrinos aos quais estamos habituados. Não sei como desejam que carreguemos tudo isto. Enquanto houver carro…

De manhã, já não nos tinham aceitado dinheiro para pagar chá. E ainda nos vieram dar água para o caminho. A isto chamo pura hospitalidade. Estou, inclusive, com ‘medo’ de até onde nos pode levar esta genuína gentileza dos sauditas…

PS: Este relato não vai pela via política. Nem pela religião ou pelas tradições, que menosprezam a mulher e o imigrante. Não sou de generalizar e ainda não posso falar com verdadeiro conhecimento de causa. Haverá tempo para isso. Este texto vai somente de pessoas para pessoas.

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19 Comments

  1. Ana

    Mais um relato que me prende às letras, às sensações… Quase q me sinto a viajar com vocês 😊

  2. Ruthia

    Ora bolas para os dogmas que criamos mesmo sem darmos conta. É da nossa (fraca) condição humana. Também fiquei curiosa em relação à matriarca da família. Afinal, é o que mais curiosidade me suscita, sendo eu mulher, graças a Deus, nascida num país ocidental no século XX…

    1. Rui Batista

      Ruthia, também eu fiquei com essa férrea curiosidade. Aqui isto vai devagar… mas a “Visão 2030” promete mudar imenso a Arábia Saudita na próxima década, sobretudo com as várias áreas relacionadas com o papel da mulher e a sua maior presença e importância na sociedade, sem castrações. Neste caso, é o novo príncipe a promover a mudança, contra forte resistência de ampla ala mais tradicional e religiosa.

  3. Fabíola Moura

    Como sempre um ótimo texto que nos faz refletir. Muito delicado esse olhar analítico sobre sua passagem pela Arábia Saudita.

    1. Rui Batista

      Fabiola, ainda cá estou 🙂 E estou a gostar muito das pessoas, sendo que muitas que se vão cruzando comigo são do Bangladesh e do Iémen… ambos com imensos imigrantes cá.

  4. Michelle

    Adorei sua forma de contar a história, além da curiosidade de ser um relato da Arabia Saudita, lugar tão pouco comum para se viajar, sua narrativa vai nos puxando a ler até o final

    1. Rui Batista

      Ainda bem que te “prendi” até ao fim, Michelle. Vai passando pelo Bornfreee, pois haverá mais relatos desta experiência. Continuo no terreno…

  5. ana

    Muito interessante seu relato da Arábia Saudita. Texto diferente de ler e entender o funcionamento das coisas.

    1. Rui Batista

      Obrigado, Ana. Normalmente, temos ideias pré-concebidas sobre muita coisa. Nada como ir ao terreno e esbater preconceitos…

  6. Fernanda Scafi

    Não estamos acostumado a ler relatos de viajantes na Arábia Saudita! Muito legal conhecer um pouquinho mais dessa cultura tão rica e desconhecida para os brasileiros!

    1. Rui Batista

      Fernanda, não há relatos, pois não era possível visitar o país em turismo. Isso mudou. Importante estar cá nesta fase de transição, de maior abertura, qeu não está a ser propriamente pacífica…

  7. Sil Mendes

    A Arábia Saudita ainda é um pouco desconhecido p mim e acredito que para muitos viajantes. Apesar de saber muito pouco sobre esse destino, tenho muita curiosidade.Esse seu texto faz a gente refletir.

    1. Rui Batista

      Sil, é um dos países ainda mais ‘misteriosos’ do Mundo, muito por culpa de regimes muito fechados e práticas culturais obsoletas, no que toca aos direitos das mulheres. Mas isso está a mudar… e a um ritmo nunca visto. Que o caminho seja esse…

  8. Ana Carolina

    Adoro seus relatos de viagens. Esse como tantos outros, ficou dez. Adorei ler seu relato sobre a Arábia Saudita

    1. Rui Batista

      Gentileza, Ana Carolina 🙂 Espero que dê para acompanhar os próximos… Obrigado e boas viagens!

  9. Angela C S Anna

    q legal, eu nem imaginava q na arabia saudita teria caju, achei q era do BR! adoro ler seus realtos, sempre ricos em detalhes e emoções

    1. Rui Batista

      Obrigado, Ângela. A Arábia Saudita abriu ao turismo somente agora, em outubro. Está a ser uma bela surpresa. As pessoas são super-hospitaleiras. A questão política e do direito das mulheres é outra coisa… que escreverei no fim da viagem, mais e melhor documentado.

  10. Carla Mota

    É tão bom quando os nossos preconceitos esbarram nos governos e não nas pessoas. As pessoas são a alma de um país. Estou a acompanhar essa viagem pela Arábia Saudita toda! bjinhos

    1. Rui Batista

      Carla, é MESMO isso!! Não vejo muitos governos à altura dos seus povos… Valha-nos essa capacidade de esquecermos esses males maiores e de podermos usufruir do melhor que o Mundo tem, as pessoas, quanto mais genuínas, melhor 🙂

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