Uma pessoa pode, sem dúvida, ser muito feliz em Veneza sem ler nada – sem criticar ou analisar ou pensar numa ideia estrénua. É uma cidade em que, suspeito, há muito pouco pensamento estrénuo, e todavia é uma cidade em que deve haver quase tanta felicidade como miséria.

A miséria de Veneza está ali à vista de todo o mundo; faz parte do espectáculo – um grande devoto da cor local talvez dissesse coerentemente que faz parte do prazer. O povo veneziano tem pouco a que chame seu – pouco mais do que o reduzido privilégio de fazer a sua vida na mais maravilhosa das cidades. As suas habitações estão decadentes; os impostos, pesados; os bolsos, leves; as oportunidades, poucas. Tem-se a impressão, porém, de que a vida se lhes apresenta com atractivos não contados nesta escassa série de vantagens, e que se dão melhor com ela do que muitas pessoas que fizeram melhor negócio. Estendem-se ao sol; chapinham no mar; usam roupas coloridas; consentem atitudes e harmonias; participam numa eterna conversazione. Não é fácil dizer que se tomariam por pessoas diferentes do que são, e certamente faria uma imensa diferença se se alimentassem melhor.

O número de pessoas em Veneza que evidentemente nunca tem o suficiente para comer é dolorosamente grande; mas seria mais doloroso se não nos apercebêssemos igualmente de que o rico temperamento veneziano pode florescer com uma ração de cão.

A natureza foi simpática com ela, e o sol, o lazer, a conversa e belas vistas constituem a maior parte do seu sustento. É preciso muito para fazer um norte-americano bem sucedido, mas para fazer um veneziano feliz basta um punhado de rápida sensibilidade. O povo italiano tem ao mesmo tempo a boa e a má sorte de ter consciência de poucas carências; de modo que se a civilização de uma sociedade se mede pelo número das suas necessidades, como parece ser hoje opinião comum, é de recear que as crianças da lagoa façam má figura num conjunto de tabelas comparativas. Não é a sua miséria, indubitavelmente, mas o modo como iludem a miséria que agrada ao turista sentimental, que fica gratificado pela visão de uma bela raça que vive com a ajuda da sua imaginação.

O modo de gozar Veneza é seguir o exemplo dessas pessoas e tirar o máximo de prazeres simples. Não há prazer mais simples do que olhar para um óptimo Ticiano, a menos  que seja olhar para um óptimo Tintoretto ou passear na praça de São Marcos – abominável o modo como nos habituamos – e descansar os olhos fatigados de luz na penumbra sem janelas; ou então flutuar numa gôndola ou estar a uma varanda ou tomar o café no Florian’s. É de passatempos superficiais como estes que se compõe um dia veneziano e o prazer da questão está nas emoções que ministram. Estas são felizmente das melhores – doutro modo, Veneza seria insuportavelmente triste.

Ler Ruskin é bom; ler os registos antigos talvez seja melhor; mas o melhor de tudo é simplesmente lá estar. O único modo de gostar de Veneza como ela merece é dar-lhe a oportunidade de nos tocar com frequência – estar, ficar e voltar.”

Italian Hours de Henry James in “A arte da viagem” de Paul Theroux

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