MISSÃO ROHINGYA: ‘Ilhas’. Guetos. Liberdade?

MISSÃO ROHINGYA: ‘Ilhas’. Guetos. Liberdade?

Foto: Nihab Rahman

Viajar por Causas: A caminho do genocídio Rohingya. 

É o momento decisivo. A sua vida – desdenha a mera existência – depende da sua opção. Do cimo da íngreme falésia, olha o vasto oceano. A liberdade está no horizonte. Na capacidade de lhe tocar. Na coragem. Na determinação. E no acaso da improvável sobrevivência ao salto no abismo: levá-lo-á à morte? Ou a uma nesga de esperança? Henri Charrière tem opção. Pode decidir. E não hesita: salta! Conquistará a sua liberdade, que o mundo conhecerá num dos mais épicos livros da história…

Este mítico e interminável ‘voo’ para a liberdade, celebrizado no livro e no filme (versão de 2018) Papillon, apanha-me dentro de avião que sobrevoa o Mediterrâneo. Um dos maiores cemitérios da atualidade. Milhares que tentam fugir da guerra, da fome, de máfias e todo o tipo de desgraças… O desespero personificado em cada primeira pessoa. E em todas as outras que trazem consigo. Demasiados morrem. Imensos ficam órfãos. Muitos outros são repatriados. A Europa fecha os olhos. Cobre o cenário com um opaco véu que nos dá o ilusório conforto de a nada assistir. Há outros temas absurdos a distrair-nos dos verdadeiramente importantes deste mundo. O mapa indica que num par de minutos sobrevoaremos Lampedusa. A ilha do sonho. Ou o início do pesadelo. Tudo depende da perspetiva. Da religião ou do tom de pele.

Foto: GMB Akash

O voo da Saudia vai praticamente vazio. Contabilizarei 21 passageiros para cerca de 600 lugares. O serviço é simpático. Nas traseiras do avião, uma zona para rezar. Que vai estando ocupada com gente que sorri. Faremos uma paragem inicial em Jeddah. Seguidamente, Riade. 12 horas de escala noite dentro (sem visto para entrar na Arábia Saudita) num país que ficou na idade média, no que toca aos direitos humanos.

O trajeto para chegar ao Bangladesh, à nossa missão com o perseguido povo Rohingya, não é seguramente o mais fácil. Mas o que se poupa nos voos permite investir em material. Que vai ajudar a melhor contar a sua história.

O filme acaba. Papillon conseguiu a sua liberdade. E, com o seu exemplo, contou a vida dos 80.000 que a França deportou para o atroz exílio na sua Guiana (Francesa) em pleno século XX. Uma desumanização que terminou em 1970.

Foto: Jashim Salam

Meio século depois, há 1,2 milhões (2,2 vezes a população da cidade de Lisboa, nove a do Porto) amontoados em barracas em solos frágeis, que se desmoronam amiúde. Traumatizados e apenas com a modesta roupa que cobre o corpo. Todos perderam familiares. Muitos foram mutilados. Mais da metade das mulheres violadas. Encaixados num imenso gueto, num dos mais pobres países do mundo, onde quase um terço da população já passa fome. Os Rohingya foram despojados da sua nacionalidade. Expropriados de toda uma vida na Birmânia/Myanmar. Sem estudos. Sem voz. Indesejados por todos. E, passadas as imagens dos 15.000 que diariamente fugiam da ténue fronteira – entretanto minada, para que não ousem regressar -, sem o interesse mediático mundo.

Esta viagem não é como as outras. Será a primeira de muitas (espero), focada em causas. Em dar-lhes (um pouco mais de) voz. Ainda não cheguei e já experienciei todo o tipo de sentimentos. Documentar-me sobre esta tragédia já foi exercício complicado. Espera-nos a realidade…

@_bornfreee_  @kitato

Este projeto em conjunto com o Luís Octávio Costa é realizado com o apoio da Bolsa de Exploração da NOMAD.     

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30 Comments

  1. Aline Aguiar

    Que coragem! Acho que você vai fazer uma viagem fenomenal e vai voltar transformado!

    1. Rui Batista

      Sem dúvida, voltarei ainda mais sensível a todo o tipo de causas humanas e dos seus direitos mais básicos. Obrigado e beijinho 🙂

  2. Ruthia Portelinha

    Ficamos deste lado de coração apertado, com um misto de orgulho, por conhecer alguém que ainda se agarra a causas, e receio do que vais encontrar por lá. Coragem amigo Rui. Que seja a primeira de muitas! Conhecendo a tua determinação, tenho a certeza que assim será!

    1. Rui Batista

      Amiga Ruthia, obrigado pelas palavras 🙂 Espero estar à altura da tua consideração. Não está a ser fácil, esta aprendizagem contínua. Cada vez com maior dificuldade em entender os ‘humanos’…

  3. Vitor Martins

    Daquelas viagens que mudam as nossas vidas!Parabens pela coragem!

    1. Rui Batista

      Vítor, enquanto bloggers temos também a ‘obrigação’ de relatar o lado B do Mundo… dar voz a causas. Grande abraço e boas viagens!

      1. Vitor Martins

        Sem dúvida nenhuma Rui. E tu consegues fazê-lo como poucos. Muitos parabéns por isso.

        1. Rui Batista

          Obrigado, Vítor, e grande abraço! 🙂

  4. Luciana Rodrigues

    Um verdadeiro soco no estômago ler tais atroxidades em pleno século XXI. Parabéns pelo seu empenho.

    1. Rui Batista

      Vários socos… que a minha experiência possa alertar e “inspirar” outros a dedicar algum tempo a divulgar causas semelhantes, na defesa dos mais básicos direitos humanos, que todos deveriam beneficiar.

  5. Andrea Rodrigues

    O tipo de viagem que certamente irá te marcar a alma. São realidades cujo o estudo para entender precisam da mistura do ler, ver e conviver. Boa sorte no teu caminho.

    1. Rui Batista

      Obrigado, Andrea. Está a ser, realmente, mais do que marcante…

  6. Carla Mota

    Parabéns Rui! Viajar por causas dá mesmo outro sentido às nossas viagens pessoais e à nossa vida. E, para além de aprendermos imenso, ajudamos a educar o mundo. Parabéns e força nisso. ADORO!

    1. Rui Batista

      É isso mesmo, Carla! Que estes pequenos gestos ajudam a mudar e ‘educar’ o Mundo para melhores exemplos… alertar as pessoas para a situação de quem não vê sequer os direitos e necessidades mais básicos cumpridos no seu dia a dia…

  7. Eloah Cristina

    Parabéns Rui! Fico emocionada a cada ação maravilhosa que você se envolve.

    1. Rui Batista

      Eloah, muito obrigado pelas palavras 🙂 Estamos juntos…

  8. Roberta Lan

    Como é triste constatar como o ser humano ainda tem muito o que evoluir… :'(

    1. Rui Batista

      Demasiado, Roberta. Parece que não aprendemos nada com a história… com os meus exemplos do passado.

  9. Angela C S Anna

    suas fotos e relatos sempre me surpreendem, textos perfeitos para refletir, muitas vezes viajamos e nem nos damos conta na diferenca q poderiamos fazer

    1. Rui Batista

      É isso, Angela: não custa viajar com mais consciência por questões de injustiça e, de alguma forma, contribuir para alertar o Mundo que nos rodeia. Tentando que este seja um pouco melhor, mais justo e “humanizado”.

  10. NiKi Verdot

    Já fico emocionada com suas palavras e fotos… Não consigo nem imaginar como deva ser vivenciar esta realidade. Parabéns pelo seu envolvimento nesta causa, Rui!

    1. Rui Batista

      Obrigado, Niki, pela atenção e cuidado. Nada como darmos um pouco mais de sentido aos nossos dias…

  11. Luciane

    Parabéns pela coragem, tenho certeza que essa viagem irá mudar a sua vida. Deve ser incrível viajar por causas.

    1. Rui Batista

      Luciane, confio que esta será apenas a primeira de muitas outras… 🙂 Beijinho e continue por aí…

  12. Ana Carolina

    Parabéns pelo projeto e pela coragem. Tenho certeza que voltará sendo uma pessoa melhor do que foi

    1. Rui Batista

      Sem dúvida alguma, Ana Carolina 🙂 Obrigado pelas palavras…

  13. Gabriela Torrezani

    Rui, enquanto o mundo fecha os olhos o seu trabalho ajuda a poucos de nós abrir a visão um pouco, sem palavras para o que está acontecendo no mundo… o que poderíamos fazer para ajudar? Os países desenvolvidos deveriam fazer alguma coisa… Não é possível que os grandes colonizadores, potências e emergentes mais desenvolvidos continuem lavando as mãos pro resto do mundo pobre, não é possível!

    1. Rui Batista

      Gabriela, mas é precisamente isso o que fazem. Dão, eventualmente, algum dinheiro para a crise, e continuam a olhar para o lado. Não acredito que seja possível um qualquer político, com poder, olhar para esta situação e o olhar para o lado. Não será um ser humano, certamente. Já está desumanizado. Não entendo as equações de poder nas quais o individuo, o outro, não contam… Somos um mero número. Com mais ou menos impacto.

  14. Christian Gutierrez

    Suas viagens tão diferentes me encanta começar essas histórias de lugares pouco visitados

    1. Rui Batista

      Lugares e realidades pouco visitadas, mas que importa mantém no topo das agendas políticas internacionais. Abraço e continue por aí, Crhistian.

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